Caso Eloá e a Mídia

Sonia Abrão representando a mídia brasileira no caso.

Caso Eloá e a Mídia

O ano era 2008. Ano de uma das maiores crises mundiais. Ano que Obama foi eleito, Fidel Castro renunciou, um terremoto matou 70 mil pessoas na China. Um austríaco foi julgado por ter escravizado a filha por 24 anos e tido 7 filhos com ela. Ano de olimpíadas e também o ano que muita tragédia foi televisionada na mídia brasileira. Uma delas foi o caso Eloá Cristina Pimentel

Em 13 de outubro, num apartamento em Santo André, uma menina de 15 anos e seus amigos estavam fazendo um trabalho escolar quando seu ex-namorado, Lindemberg Alves, invadiu sua casa armado e a manteve refém por quase 100 horas. O sequestrador não aceitava o fim do relacionamento e em negociação com a polícia disse que queria matar a Eloá e se matar. 

Os dois tiveram um relacionamento conturbado de mais de dois anos.

Com vários términos e voltas. Dessa vez, Eloá aceitou e não queria mais voltar. O sequestro resultou em um tiro na boca de Nayara, amiga de Eloá, e a morte da menina, com um tiro na cabeça e outro na virilha. 

Contextualizados? Vamos pra parte interessante e ainda mais revoltante do caso todo: a mídia e a polícia. 

O caso foi televisionado por diversas emissoras. Diversos jornalistas ligaram para o sequestrador. Inclusive, uma apresentadora ligou para a menina e pediu pra ela mandar um recado para as famílias, dela e do seu assassino. A edição fez com que tudo parecesse uma cena de filme. Durante os cinco dias que estava em cárcere privado, Eloá foi exposta. E nunca como a vítima

Em vários momentos da cobertura, os jornalistas dizem que Lindemberg é apenas um jovem sem passagem na polícia. Apenas um jovem apaixonado que perdeu o controle. Ele não é só isso. Lindemberg estava ali para matar a ex-namorada. E isso faz dele um assassino. Não importa quantas passagens ele tinha na polícia ou sua idade. 

Um dos jornalistas liga para o sequestrador, diz ser amigo da família e pede pra ele manter a calma. E como se não tivesse escutando o que menino falava, continuava pedindo pra ele não se desesperar. Essa cena está no documentário “Quem matou Eloá?”. Lindemberg estava calmo, disse estar ali a sangue frio.

Não estava desesperado, porque, segundo ele mesmo, se estivesse tinha atirado na própria cabeça e acabado com a história.

A mídia estava extremamente preocupada em fazer dinheiro e Ibope com aquilo. Era uma disputa de quem era mais sensacionalista. Quem iria interferir mais no trabalho da polícia. Quem iria dar mais palco para um assassino e pintá-lo de jovem inconsequente. 

Em outro momento, Sônia Abrão chama a seu programa um especialista. Diga-se de passagem que ele só podia ser especialista em normalizar machismo. No documentário citado anteriormente também mostra essa entrevista. O especialista diz que é um cara que a amava, e que todo aquele caso ainda terminaria em casamento. A mesma apresentadora também ligou mais de uma vez pro sequestrador e também para a refém. Numa delas, pediu para a menina mandar um recado para a família dos dois, já que estão preocupados com os dois.

Francamente, vocês não entendem a gravidade disso? Do quanto estão normalizando algo que não deve ser normalizado? É como se um casal tivesse preso em algum lugar. É como se os dois fossem as vítimas. Ele é um sequestrador e assassino. Ele não tem que ser protegido. Ele se achou no direito de exigir as câmeras filmando para ter certeza que não aconteceria nada com ele.

Porque ele tava se sentindo a vítima e a estrela ali. E não era assim. 

Além disso, a polícia errou em vários momentos. O primeiro deles foi ter passado 100 horas pra decidir o que fazer. Deixando que a mídia se metesse na decisão e na negociação com um criminoso. Teve também o fato deles deixarem uma adolescente de 15 anos voltar pro cativeiro pra tentar negociar com seu sequestrador e ver a amiga morrendo na sua frente

As ações da polícia foram mal calculadas. A escada era curta. Tentaram abrir a porta com explosivos. Não fizeram nada pra impedir que Eloá morresse. E mesmo assim, as imagens que apareciam na TV de milhares de brasileiros eram de um filme de ação. Como se aquilo não acontecesse realmente. Como se fosse só um filme. E não era. Talvez isso não tenha ficado claro pra todos: uma adolescente estava encarcerada e nesse momento, quase morrendo. 

Depois de tudo que aconteceu a imprensa ainda não consegue fazer uma autocrítica, Brito Júnior diz “nós não infringimos nenhum código de ética. Foi uma cobertura intensa, mas em nenhum momento sensacionalista”. E aí eu te peço pra perguntar pra quem assistiu na época: era realmente necessário todos aqueles detalhes de um crime brutal? 

Aí eu volto a bater na tecla que bato todos os dias no Twitter: por que os feminismos são tão importantes?

Nesses momentos, o feminismo faria muita diferença. Pra dar liberdade pra essa menina. Que nem deveria estar namorando com esse cara, já que, quando começaram, ela tinha 13 e ele 20. Se ela conhecesse o feminismo, esse relacionamento não tinha chego onde chegou. Na primeira vez ela já teria acabado e talvez ele não estivesse tão transtornado. 

Também é importante lembrar que provavelmente essa menina teria muito mais proteção contra essa exposição se o feminismo tivesse mais força na época. Com certeza ela seria tratada como vítima, e não como culpada de não querer fazer o que o menino quer. 

A normalização desses relacionamentos, desses casos e desses feminicídios precisa acabar pra ontem. Milhares de mulheres morrem e a mídia só age de dois jeitos: silenciando ou afastando da realidade. E dessa mídia que afasta, vamos fazer um episódio especial. Ou você vê um homem que amava a esposa que assassinou. Ou você vê um homem sendo pintado como monstro. Mas eles são apenas homens e como homens são capazes de cometer tal ato porque tem a legitimação da sociedade. 

Agora fica a questão: quem matou a Eloá? E eu te respondo, você matou Eloá. Eu matei. Todos nós. Normalizando um crime, legitimando o machismo e as relações de poder, assistindo as cenas horríveis que a TV só passava porque tinha espectadores. Porque isso vende. Mas não é pra vender. Não é esse o papel da mídia. Lindemberg se sentiu legitimado e protegido. E vocês fazem outros se sentirem assim.

Ei, esse texto foi originalmente publicado no Guarda-Roupa em 20 de outubro de 2018.

Olá, meu nome é Stéfany, tenho 19 anos, sou host aqui do Gaveta e participo também do É Pau, É Pedra. Sou estudante de jornalismo (5/9), produtora de conteúdo e feminista. Me acompanhe nas redes sociais pra gente conversar mais!

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